quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O debate sobre inflação e crescimento

Já tinha ouvido falar que, apesar do grande consenso em torno da necessidade de controle da inflação, a evidência empírica parece descartar efeitos nocivos desta sobre crescimento até níveis moderados de aumento dos preços. Resolvi hoje ir atrás das evidências.

Nesse momento em que inflação não é preocupação primária, esse post pode parecer meio fora de lugar. Mas acho que pode permitir uma discussão interessante sobre credibilidade do BC, bem como sobre nível de gasto compatível com uma taxa de inflação tolerada mais elevada.

Evidência 1: Nonlinear Effects of Inflation on Economic Growth, by Michael Sarel © 1996 International Monetary Fund.

This paper examines the possibility of nonlinear effects of inflation on economic growth. It finds evidence of a significant structural break in the function that relates economic growth to inflation. The break is estimated to occur when the inflation rate is 8 percent. Below that rate, inflation does not have any effect on growth, or it may even have a slightly positive effect. When the inflation rate is above 8 percent, however, the estimated effect of inflation on growth rates is significant, robust, and extremely powerful. The paper also demonstrates that when the existence of the structural break is ignored, the estimated effect of inflation on growth is biased by a factor of three.

Contra-Evidência 1: Warning: Inflation May Be Harmful to Your Growth, by Atish Ghosh and Steven Phillips © 1998 International Monetary Fund.

While few doubt that very high inflation is bad for growth, there is less agreement about the effects of moderate inflation. Using panel regressions and allowing for a nonlinear specification, this paper finds a statistically and economically significant negative relationship between inflation and growth, which holds robustly at all but the lowest inflation rates. A "decision-tree" technique identifies inflation as one of the most important determinants of growth. Finally, short-run growth costs of disinflation are only relevant for the most severe disinflations, or when the initial inflation rate is well within the single-digit range.


Evidência 2: Threshold Effects in the Relationship Between Inflation and Growth, by Mohsin S. Khan and Abdelhak Senhadji 2000 © International Monetary Fund (IMF)

This paper reexamines the issue of the existence of threshold effects in the relationship between inflation and growth, using new econometric techniques that provide appropriate procedures for estimation and inference. The threshold level of inflation above which inflation significantly slows growth is estimated at 1-3 percent for industrial countries and 7-11 percent for developing countries. The negative and significant relationship between inflation and growth, for inflation rates above the threshold level, is quite robust with respect to the estimation method, perturbations in the location of the threshold level, the exclusion of high-inflation observations, data frequency, and alternative specifications.

Evidência 3, mais atual: Barro (2001) "Handbook of monetary and fiscal policy"

Utiliza variáveis instrumentais para dar conta da endogeneidade da inflação, encontrando efeito significativo e negativo sobre crescimento, mas de magnitude bastante reduzida: um aumento de 10 pontos percentuais da inflação reduziriam o PIB em 0.2% ao ano, em média.

Resumo da ópera: A despeito da contra-evidência 1, parece haver emergido relativo consenso de que, excetuando-se episódios de inflação realmente elevada:

(i) se houver efeito negativo de inflação sobre produto, este é bastante pequeno;
(ii) parece haver um threshold abaixo do qual não há trade-off entre inflação e crescimento;
(iii) esse threshold parece ser mais alto para economias em desenvolvimento!

E agora?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Natural?

Continuando a briguinha ortodoxos vs. heterodoxos, eu fico realmentre triste quando ouço que "a economia está perdendo contato com a realidade e se tornando um ramo da matemática aplicada". Eu entendo duas coisas neste tipo de afirmação. Primeiro, a teoria econômica estaria ficando incompreensível para leigos, logo, irrelevante. Segundo, matemática (avançada) é simplesmente uma abstração boba que não serve para nada.

Como todo economista (ortodoxo), eu tenho inveja da física. E como os físicos, aprendi que soluções simples e elegantes são melhores. Então eu vou dar um contra-exemplo que eu acho simples e elegante sobre como um "ramo da matemática aplicada" é essencial para a civilização.

Existem uns experimentos muito interessantes sobre como os animais percebem quantidades. O desenho é em geral da seguinte forma. Suponha que estamos tratando de macacos. Macacos gostam de banana, então, se um macaco pode escolher entre duas caixas cheias de bananas, ele vai escolher a caixa que tenha mais bananas. Então os cientistas pegam caixas diferentes que o macaco consiga identificar e coloca quantidades diferentes de banana em cada uma, de maneira que o macaco veja quantas bananas estão sendo colocadas. Depois, o cientista permite que o macaco escolha uma das caixas.

O resultado é que diferentes animais sabem "contar" até 3. Ou até 5. Ou até 7. Mas nunca até 21, por exemplo. O que acontece é que quando o macaco vê duas bananas sendo colocadas em uma caixa e uma banana sendo colocada na outra, ele sabe que 2 é maior do que 1. Mas quando ele vê 12 bananas sendo colocadas em uma caixa e 23 em outra, pra ele as duas quantidades são simplesmente "muitas banas", e ele não consegue lembrar, ou saber, qual é maior.

Esse historinha serve para mostrar que os números naturais são uma abstração. Eles não "existem" na natureza. São "um ramo da matemática aplicada", uma parte da "teoria algébrica". Acredito que o mesmo experimento feito com bebês humanos daria o mesmo resultado que o experimento com macacos. Mas feito com um adulto, evidentemente, daria um resultado diferente. Isso porque todo mundo aprende, antes mesmo de ir à escola, a contar e a associar cada número com uma quantidade. Assim nós sabemos que 23 é maior do que 12.

É possível inventar outras historinhas dessas para os números inteiros, racionais, reais, imaginários e várias outras centenas de "ramos da matemática aplicada" que, por acaso, tem muito a ver com a realidade.

Útil, não é? Tem bastante contato com a realidade, não tem? Mas aposto em em 12 mil antes de cristo, quando um pastor "inventou" os números naturais e começou a encher um saco com uma pedra para cada ovelha do rebanho, o pastor do rebanho ao lado olhou e disse "Que inútil. Isso não serve para nada."

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Gabriel Buchmann responde a Michel Foucault



Na Genealogia da Ética, Michel Foucault perguntou:

"- O que me impressiona é o fato de que em nossa sociedade, arte se tornou algo ligado somente a objetos e não a indivíduos. Que arte seja algo somente para experts ou artistas. Mas por que não pode a vida de alguém se tornar uma obra de arte?"

- Ela pode, Foucault. Ele pôde.

Saudades.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A pergunta da rainha

A Rainha Elizabeth II perguntou como foi que os economistas permitiram que a crise mundial acontecesse. Uma comissão de 'outstanding economists' da LSE respondeu que a inação derivou de "uma falha da imaginação coletiva de muitas pessoas brilhantes" (matéria completa aqui).

A resposta deixa a desejar e chega a suscitar a questão de para que servem os economistas, à qual o Financial Times ofereceu algumas respostas. Tratarei aqui de duas questões ligeiramente diferentes que, acredito, permitem respostas muito mais interessantes: qual o papel dos consumidores de teoria econômica? E qual o papel dos produtores de teoria econômica?

Produtores
Os produtores de teoria econômica são os pesquisadores acadêmicos vinculados às principais instituições mundiais de pesquisa em Economia. Inseridos em determinado programa de pesquisa, há duas estratégias de sobrevivência (em termos de Pierre Bourdier): (i) de continuidade do programa de pesquisa, derivando resultados periféricos que basicamente constituem desdobramentos das hipóteses e métodos que constituem o núcleo duro do programa, e (ii) de ruptura do programa de pesquisa, que consiste na introdução de novas hipóteses ou métodos que desafiam os anteriores.

Evidentemente, a segunda estratégia é limitada por uma série de fatores:
- a profissão é auto-referenciada, isto é, para publicar é necessário ter artigo aprovado por pares que partilham do programa de pesquisa atual;
- ligado ao primeiro ponto, a publicação em economia é norteada por um princípio de consistência interna, de maneira que a linguagem e método utilizados devem corresponder à prática aceita pela profissão;
- o destino dos recursos necessárias para realização de pesquisa (incluindo salários) é também determinado por pares que partilham do programa de pesquisa corrente.

Fica claro que, ainda que rupturas eventualmente tomem corpo, o trabalho cotidiano do produtor de ciência econômica se concentra em desenvolver perifericamente o programa de pesquisa, se possível para responder questões econômicas relevantes (que dizem algo a respeito do mundo).

Não é seu papel - no sentido que não constitui projeto viável dentro do programa de pesquisa - desenvolver uma teoria completa sobre o mundo, ou combinar diferentes abordagens de maneira a aproximar uma suposta verdade. Uma análise cuidadosa da História da evolução dos programas de pesquisa em Economia mostra que seu desenvolvimento foi sempre pontuado por questões políticas e ligadas à possibilidade de funding - como mostrou a excelente exposição de Philip Mirowski no 1º Simpósio Internacional sobre História do Pensamento Econômico, organizado pela USP -, sofre influências externas a seu programa de pesquisa - como a co-evolução do Equilíbrio Geral de Arrow-Debreu e do modelo IS-LM de Hicks, segundo Wade Hands, no mesmo simpósio - e nem sempre caminha linearmente, muito menos no sentido de progresso - conforme pensava Lucas, na visão criticada por Kevin Hoover, também nesse seminário, acerca da microfundamentação da Macro.

Mesmo os inicidos em filosofia da Ciência muitas vezes se esquecem que, na prática os pesquisadores em economia estão sujeitos aos mesmos princípios que orientam a evolução de qualquer outra Ciência.

Consumidores
De outro lado, os consumidores de teoria econômica, sobretudo os formuladores de política, têm por papel selecionar as teorias adequadas, bem como os elementos relevantes da teoria, para dar suporte à atividade de solução de problemas que responde a alguma demanda real.

Em outras palavras, uma vez que se entenda que o programa de pesquisa mainstream não possui monopólio da verdade ou da validade das teorias, pelo que se disse acima - teorias não são selecionadas porque se aproximam mais da verdade que outras, mas porque respondem de forma mais aceitável a uma determinada questão segundo critério da comunidade científica que subscreve àquele programa de pesquisa; mais do que isso, persistem no tempo em função de path-dependency, até que possivelmente não mais configurem a resposta mais adequada às questões agora tidas como relevantes - a responsabilidade pelo mau uso da teoria remete aos consumidores, e não aos produtores de teoria econômica.

Não há qualquer fundamento na asserção de que as idéia de Minsky ou Kindleberger tenham perdido validade, ou se aproximam menos da verdade, ou dizem menos sobre o mundo, simplesmente porque não foram incorporadas ao programa mainstream.

Se os modelos DSGE mais avançados não dão conta de externalidades macroeconômicas e da possibilidade de falências, instabilidade e crises (Robert Gordon, também no excelente simpósio da USP), isso não é motivo para que os policy-makers tenham ignorado os efeitos deletérios da 'Grande Moderação' sobre a gestão de risco das instituições financeiras. Os policy-makers que em 1987 rejeitaram a substituição do Glass-Steagal Act enumeraram uma a uma as consequências que estariam ligadas a essa reforma e que se materializaram na crise de 2008.


Conclusões
Uma resposta mais adequada à pergunta da rainha é que houve uma enorme falha dos consumidores de teoria em fazer uma leitura adequada da realidade a partir do universo teórico disponível (cujo paradigma, aliás, não sofreu alterações substantivas desde 1987).

Alternativamente, a resposta dos 'outstanding economists' aponta o dedo para os produtores , como que esperando deles a concepção de uma teoria que reflita somente 'verdade' . No máximo, 'wishful thinking' - para concluir como gostam os ingleses.

O suicídio de Cambridge

Nota curta
A universidade de Cambridge, na Inglaterra, vem passando por uma reformulação radical nos últimos anos. Antes referência mundial do pensamento heterodoxo, somente Gabriel Palma e Ha-Joon Chang sobreviveram no departamento de Economia.
O objetivo era se converter em uma referência mundial do pensamento ortodoxo, mas o que se viu foi Cambridge retroceder à 5ª posição do ranking nacional (veja aqui). Também, pudera: a re-estruturação era uma impossibilidade lógica. Cambridge adotou uma estratégia de "proteção à indústria nascente" na tentativa de desenvolver um centro ortodoxo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Meninos da PUC respondem a Oreiro e Andrade: podemos conversar, mas com algum método.*

Recentemente recebemos aqui no Espectro um link que nos levou à algumas críticas referentes a um post escrito aqui. As críticas são de Cyro Andrade, autor do texto, "Podemos Conversar", publicado no valor, reforçando o comentário feito por José Luiz Oreiro, professor da UNB, feito em seu blog.

O artigo escrito no valor trata de críticas feitas ao método que vêm sendo adotado para se comunicar academicamente nas escolas tradicionais. Os críticos propõem um método mais plural, na forma de dialogo entre as diversas correntes, em contraste ao monólogo imposto pelos modelos que partem do individualismo tratado de forma matematizada. Argumentam também que a crise é fruto dessa forma de se pensar.

O artigo aqui publicado, pelo Rafael Magri, ataca essa visão argumentando que a distinção ortodoxia e heterodoxia é um tanto cinzenta, e que a divisão relevante seria entre má e boa economia. "Sempre que a "profissão" consegue aprender alguma coisa, estamos falando de boa pesquisa. Sempre que existe blá blá blá, análises intermináveis sobre textos antigos e estatística (ou econometria) feita sob medida para encontrar resultados, temos uma pesquisa ruim."

Inicialmente, a crítica feita por Oreiro se refere a um comentário feito aqui por um anônimo,
"É, esse caderno do Valor foi deveras idiota.
Alguém quer me ajudar a contar quantos heterodoxos escrevem no Valor e em outros jornais? E comparar com o número de "ortodoxos"? "

Em resposta, mostra que 9 articulistas são ortodoxos enquanto 7 são heterodoxos. Enfim, o valor é um jornal pluralista. Fato que Andrade também confessa ser verdade, dizendo que essa é uma das razões para que o Valor seja um jornal tão respeitado.

Felizmente não temos controle sobre nossos comentaristas. Não posso responder por ele, e nem gostaria. O que posso fazer é comentar o descontentamento do jornalista e do economista sobre a cabeça fechada do que comenta. E só.

A discussão não é clara ao delimitar o que está criticando. Não distingue o que é crítica sobre a abordagem de modelar matematicamente um problema e testar as conclusões que dele resultam; o que é crítica às hipóteses subjacentes aos resultados; o que é crítica ao capitalismo, às finanças; e tão pouco, o que é birra por não concordar que evidência estatística possa significar algo. Atira-se para todos os lados, buscando reunir o maior número de "anti-autistas" possível. Qual é a proposta alternativa? Esquecer as técnicas mais precisas em detrimento da Retórica.

Alguns exemplos dos argumentos citados na matéria do Valor:
1) “o que falta [à macroeconomia dominante, na academia e nas escolas] é um sentido do todo humano”, por que “a economia ‘samuelsoniana’, termo melhor do que ‘neoclássica’, reduz toda a economia às aventuras de um mau caráter chamado Max U” (que maximiza a utilidade). “Esse sujeito é um completo idiota! Só pensa em si mesmo. Uma economia pluralista fala de pessoas reais.”
2) (...) "Mas fica difícil para um economista externo ao pensamento “mainstream” entrar no circuito das publicações acadêmicas, terreno importante para a apresentação de idéias que possam ser consideradas inovadoras. É o que explica McCloskey: “O problema é que, para ter um artigo aceito num “journal” samuelsoniano, você deve usar um modelo Max U e deve expressar seus resultados em ‘teoremas de existência’ -- que não têm nenhuma importância como ciência, pois ciência trata de grandezas, não de teoremas de existência. Além disso, você precisa usar ‘significância estatística’, o que é um procedimento também desimportante. Se você está apenas raciocinando sobre economia, usando argumentos coerentes e mantendo-se atento às possíveis magnitudes relevantes, então você está fazendo verdadeira ciência econômica. Mas não vai ser publicado.”

Os economistas aplicados do mainstream vivem de testar as hipóteses dos modelos. Quando não encontram evidências dos resultados, surge um desafio para a teoria, criando espaço para que busquem melhores respostas. Se não há um acordo com a abordagem de teste, como se avaliar um argumento? É preciso um terreno comum, que possibilite a avaliação precisa dos argumentos e a contraposição das conclusões com a realidade. A econometria têm evoluído para construir esse terreno comum.

A má economia está para a teoria econômica como a alquimia está para a química. Química moderna é a racionalização de práticas da alquimia sem as crenças mitológicas. Não há nenhum problema com crenças, só não podemos aceitar que elas se finjam de ciência.

O maior argumento da mediocridade é fazer-se passar por diversidade. Diversidade é quando se abre espaço para diferentes idéias igualmente válidas. Há muito espaço para contestação e diálogo dentro da boa economia, mas é preciso método e implicações refutáveis. Caso contrário, é melhor usarmos túnicas e buscarmos uma pedra-filosofal heterodoxa.

*Esse post foi escrito conjuntamente com Tiago Caruso

domingo, 26 de julho de 2009

Economia do cinema

O mercado nacional de cinema é algo que tem me interessado muito nos últimos 18 meses, em particular em virtude de suas transformações ao longo do tempo. Como pouquíssima gente já refletiu sobre o setor com um olhar econômico, há muita coisa a ser explorada em pouco espaço, então hoje vou focar na organização industrial do setor. Se o post emplacar volto a falar no tema.

Na maioria das economias desenvolvidas, o setor é caracterizado pela integração vertical das etapas da cadeia produtiva: distribuidor e exibidor fazem parte de um mesmo conglomerado. A lógica econômica por detrás dessa organização remente à continuidade natural dessas atividades: (i) os retornos de uma distribuição onerosa aparecem na forma de maiores receitas para o parque exibidor, (ii) o exibidor, de outro lado, condiciona a extensão do retorno possível para as atividades acima na cadeia, ao controlar o tempo em cartaz, exibição de trailers e outras estréias.

No Brasil, essa lógica prevaleceu até início da década de 1990, o que esteve associada a forte desempenho do cinema nacional, impulsionado também pela atividade organizadora da EMBRAFILME. Com a abertura comercial, grandes distribuidoras (as majors) adentraram o mercado nacional em especial em função das modificações sofridas pelo parque exibidor, em que se estabeleceu um novo modelo de negócio: salas em shoppings, em detrimento de salas de rua, e sobretudo os complexos multiplex, nos quais uma única cópia pode ser exibida em mais de uma sala.

O novo modelo chacoalhou o setor, e distribuição e exibição passaram a constituir atividades separadas. A relação de barganha sobre os retornos gerados pela intensa complementariedade das atividades estabeleceu-se com grande desequilíbrio, em favor das distribuidoras. Nesse sentido, todo o retorno de um filme primeiro é direcionado para remunerar sua distribuição. Isso fez com que a lucratividade da exibição fosse extremamente reduzida, com impactos diversos: (i) apenas 7% dos municípios brasileiros possui sala de cinema, e são raros os municípios com menos de 100 mil habitantes que possuem alguma oferta de salas; (ii) a partir de 2002, com a mudança de estratégia de despesas de lançamento (cerca de 40 cópias por filme até então, para uma média próxima de 15o cópias por filme) - adicionalmente a toda uma nova estratégia de comercialização das majors, focando nos blockbusters e sequências e progressivamente eliminando a produção residual - a produção nacional não conseguiu acompanhar a internacional exibida aqui em termos de cópias no lançamento, pois a distribuição tornou-se tão cara que seria virtualmente impossível recuperar os custos totais de um filme.

A política de valorização da cultura e apoio ao cinema nacional, sobretudo expressa na determinação de cotas de tela, é mal desenhada e pouco amparada em dados, transferindo cota de complexos menores para médios (ou vice-versa) conforme o cinema nacional vai mal (ou bem) no ano anterior. Uma política de fomento à criação de novas salas pareceria a mais adequada a aumentar o público do cinema nacional, pois o problema de restrição de oferta é evidente, não só pela escassez de municípios com tela, mas também porque o Brasil tem uma das relações mais inadequadas em termos de habitantes por sala (o considerado ideal é de 40.000, apenas DF apresenta relação inferior)... mas como fazer isso se o negócio não é lucrativo?

Diante disso, a digitalização das salas aparece como a política mais promissora, pois reduz de maneira substancial os custos de exibição, tornando possível que uma sala no interior do Nordeste exiba um blockbuster no mesmo momento em que ele foi lançado numa capital. Isto não apenas redistribuiria poder de barganha entre distribuidores e exibidores, mas tornaria lucrativo o negócio exibidor, permitindo sua expansão e também incremento da competição (ainda que algo pulverizado, o líder do setor - a rede Cinemark - possui 3 vezes a participação da segunda empresa de maior market share).

quinta-feira, 23 de julho de 2009

O trabalho de Gabriel Buchmann

Não sei quantos de vocês estão acompanhando o desaparecimento do economista Gabriel Buchmann , mas essa notícia mexeu especialemente comigo e no meio a torcida para que ele seja encontrado bem, resolvi escrever esse post.

Não que eu o conhecesse muito bem, ele fez graduação e mestrado em economia na PUC-Rio 3 anos antes de mim, por gostarmos dos mesmos temas conversamos algumas vezes. Figura ótima, expansivo, genuinamente simpático.

Mas eu não o conhecia muito bem. A notícia de seu desaparecimento mexeu comigo porque acima de tudo eu admiro. Admiro o trabalho dele. Tive oportunidade de ver a defesa de tese dele e depois lê-la. É brilhante. E a melhor homenagem para pessoas brilhantes é a simples exposição de seu trabalho.

A tese de Gabriel Buchmann, defendida na PUC em 2007, consiste em um modelo em que interagem 3 fatores: educação, taxa de natalidade e economia política. Com isso ele funde duas correntes da literatura de desenvolvimento econômico que explicam como sociedades podem se manter altamente desiguais.

Ele constroi um modelo de dinâmica inter-geracional e mostra algo fundamental para ciências sociais: Com uma democracia eficiente, a desigualdade não pode ser persistente. Isso acontece pois como os pobres têm mais filhos, eles tendem a se tornar preponderantes e a votar em governos que melhorarão a educação pública e isso fará com que o custo de educar crianças diminua, desviando o trade-off qualidade vs quantidade de filhos em prol de um equílibrio onde todos têm poucos filhos e eles são bem educados, o que reduzirá a desigualdade. Um tratado de ciência política em linguagem matemática.

Por favor Gabriel, seja encontrado. Queremos mais.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Probabilidade é mais importante que cálculo

Desculpem-me os engenheiros, esse é um blog formado em sua maioria por economistas e a opinião pode ser tendenciosa.

Nesse vídeo no TED , Arthur Benjamin , matemático, argumenta de forma clara e direta  algo que há tempos eu concordava: Probabilidade é mais importante do que cálculo.

De forma alguma acredito que cálculo não seja importante. De fato, a frase acima é um pouco genérica, uma coisa não é mais importante do que a outra per se, precisamos de algum critério. O foco da discussão é que tipo de instrução matemática as pessoas deveriam ter no segundo grau. 

No high school americano, as crianças podem optar por estudar cálculo e mesmo no segundo grau brasileiro, grande parte das disciplinas básicas de matemática, aritimética e geometria, culminarão com o estudo de cálculo. O que acontece tanto lá quanto aqui é que, a não ser pessoas que trabalharão na áreas de exatas (e mesmo dentro dessas áreas), ninguém terá contato com esse tipo de problema no quotidiano. 

Por outro lado, os conceitos necessários para compreensão de dados, como média, desvio-padrão, mediana, distribuição, correlação, risco, aleatoridade estão presentes no dia a dia de jornalistas, cientistas sociais, médicos e até advogados e por isso deveriam receber mais importância na formação básica em um mundo digital.


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Um novo modelo?

O professor Robert Reich postou recentemente em seu blog um comentário interessante sobre as perspectivas de recuperação (leia a íntegra aqui) : "My prediction, then? Not a V, not a U. But an X (...) The X marks a brand new track -- a new economy. What will it look like? Nobody knows. All we know is the current economy can't "recover" because it can't go back to where it was before the crash. So instead of asking when the recovery will start, we should be asking when and how the new economy will begin."

Também falando sobre a crise, mas num contexto mais amplo, André Lara Resende (leia aqui) questionou que seja possível sustentar o modelo de crescimento que o mundo assistiu na última década: "Emerging market countries, traumatized by the recurring crises, came to understand that the adoption of the macroeconomic policy consensus was not enough to guarantee investor confidence. They were not allowed to benefit directly from the euphoric expansion of world credit. To avoid being repeatedly knocked down by a sudden lack of investor confidence, when going too far in their dependence on foreign capital, emerging market countries adopted a cautious attitude (...) Growth of emerging economies has relied on exports to cater to the consumption of the central economies, while domestic consumption was repressed (...) Emerging countries, that have only a conditional credibility, do not have room to turn domestic consumption into the engine of growth. Any attempt to mobilize internal consumption as an autonomous factor of growth increases the risk of running against the external restriction. The result could be a major and disruptive currency devaluation, after which there will be no room to conduct anti-cyclical policies (...)".

E conclui: "High rates of growth, based on the increase in consumption of the mature economies of first-world countries, cannot be sustained for a prolonged period. First-world countries have low or zero demographic growth, an inverted demographic pyramid and already very high standards of living. The maintenance of a high rate of consumption growth depends, both on the creation of new consumption needs and on the permanent expansion of credit to families with ever higher levels of debt. The rich central countries consume, financed by ever higher levels of debt, in order to satisfy ever more artificial needs, with products made in China, which controls its labor costs and buys raw materials from emerging countries. No need of a profound analysis to conclude that in the long run this model is unsustainable."

Tão ou mais importante que a discussão sobre o que será o novo modelo regulatório para o sistema financeiro está uma questão central: qual será o novo modelo de crescimento para o mundo nas próximas décadas?

Até então, a resposta parece completamente incerta e é hora de boas cabeças tentarem sugerir soluções...