sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A cozinha maravilhosa de Olivier Blanchard

Existe um grupo de economistas que considera que uma das causas fundamentais da crise foram os desequilíbrios globais, isto é, países desenvolvidos mantendo enormes déficits em conta corrente, enquanto emergentes ficavam com o superávit. Quem financiava a festa? Os emergentes, comprando títulos dos desenvolvidos para acumular reservas. Essa política garantia um seguro contra sudden stops na estrada de capital nos emergentes E permitia aos desenvolvidos manter seus déficits fiscais.

Hoje eu acho que é consenso que quem sofreu as conseqüências da brincadeira foram os desenvolvidos. Um dos motivos para isso (já não é consenso) foram as reservas gigantescas dos emergentes, que permitiram que a saída abrupta de capitais não causasse grandes reflexos na economia.

Aí, no último fim de semana teve uma reunião do FMI em Istambul. E o Blanchard, bonitão, disse que acumular reservas é burrice, e propôs um sistema de seguros, onde os países interessados pagariam um prêmio anual ao FMI pelo direito de sacar recursos em momentos de emrgência. E, olha que excelente, países com políticas consideradas saudáveis poderiam pagar prêmios menores.

Ou seja, a gente resolve o problema dos desenvolvidos, ferra os emergentes e ainda descola uma graninha extra para o FMI. Achei de uma cretinice monumental.

PS.: A distinção "desenvolvido" e "emergente" é didática. É claro que não dá pra dizer que todos os países de cada grupo se comportaram da maneira descrita acima.

8 comentários:

Anônimo disse...

"cretinice", por favor!

Rafael M disse...

Ops, obrigado.

Anônimo disse...

Estou pensando aqui se uma das causas da crise tenha sido esse desequilíbrio. Não sei se foi causa ou "pano de fundo" ou melhor uma condição necessária para a crise.

De qualquer modo, esse desequilíbrio contribuiu para o desenvolvimento da crise.Mas acredito que razões como a falta de regulação bancária e a percepção de risco foram mais importantes.

Independetemente das causas, a proposta do Blanchard é no mínimo utópica. Até parece que os países vão deixar de lado a gestão de suas reservas para fazer um seguro com o FMI. Acho que alguns economistas simplesmente esquecem de questões políticas/ideológicas ao formular propostas. Por exemplo, até parece que a China toparia mexer nisso...ela não quer mexer nem no câmbio!

Mari

Alex disse...

Rafael:

A proposta tem que ser melhorada, mas pode, acredito, ser Pareto-improving.

Imagine uma economia qualquer, com produtores sujeitos a choques idiossincráticos (por enquanto iid). Em cada período, um produtor é escolhido para o choque.

Cada produtor pode guardar uma parte do seu produto por um motivo precaucional, ou, alternativamente, podem fazer juntos um fundo que cubra aqueles que sofreram o choque num dado momento.

Se os choques forem iid (na verdade o primeiro i é o mais importante), não deve ser difícil mostrar que o segundo arranjo é melhor no sentido de Pareto. Ao invés de deixar de consumir uma fração igual à perda esperada em qualquer momento (estou supondo indiferença a risco aqui), cada um contribui com uma fração que represente 1/N da perda esperada (N sendo o número de produtores).

Isto é, acabei de mostrar um exemplo clássico de seguro. Há questões óbvias: (1) assimetria de informação; e (2) o pressuposto de independência dos choques. Não quero nem entrar no primeiro (é complicado pra burro). Só o segundo (que é menos complicado e nem assim simples) já joga muita areia nesta história.

Isto dito, se bem pensado, este mecanismo pode ajudar todo mundo a consumir um pouco mais. Não sei se teria evitado a crise (desconfio que nao), mas poderia melhorar o bem-estar.

O busílis, óbvio, é bolar um mecanismo bem-pensado. Acho que estamos muito distantes disto e uma boa tese poderia ir para o ralo por problemas de montagem/execução.

Abs

Alex

Rafael M disse...

Alex,

Sem dúvida o seguro, em tese, levaria a um consumo maior para todos.

O problema é o Blanchard sugerir isso como política na prática. Para mim, o problema de agênciamento aí nessa história (as assimetiras de informação) é muito sério. Por isso eu achei a proposta irresponsável.

Mas por outro lado, também acho inócuo. É muito improvável que qualquer governo de algum país aceite o risco de trocar reservas pelo seguro...

Abs,

Anônimo disse...

Acho que a crítica talvez tenha sido um tanto exagerada.

É natural esperar que o primeiro passo para que uma política seja praticável, seja sua idealização/discussão. Nesse contexto inicial, é de se esperar que as discussões envolvam situações primeiramente utópicas (em um mundo dito "perfeito") para, posteriormente, adentrarem em um contexto mais complexo (como bem citado o exemplo da assimetria).

Mas creio que a crítica válida seja válida em chamar a atenção para a distinção entre o mundo utópico e perfeito dos exercícios feitos em sala e da realidade (de elevada complexidade).

Parabéns pelo Blog.
Abraço,
Guilherme

Rafael M disse...

Obrigado Guilherme,
Abs

Leonardo Cardoso disse...

É, não há dúvidas acerca disso: "a galera" percebeu a bolha e correu para os ativos reais, deteriorando ainda mais a relação de troca a favor dos emergentes. Todo mundo sabe, ou deria saber, que os que fazem por consumir seus "haveres externos líquidos" (ou no jargão dos macroeconomistas, os que fazem por emitir ativos líquidos via movimento de capitais para o exterior)tendem a suportar uma carga de ajuste futuro maior como forma de trazer a conta corrente do balanço de pagamentos para o equilíbrio se, de fato, fizerem uso desmedido de poupança externa e, pior, estando atualmente imersos num arrefecimento de escala planetária. Blanchard "nunca sentiu" (ou melhor, nunca vivenciou) as implicações reais e deletérias de tal ajustamento - está assutado! O receitava para países não emissores de ativos-reserva, já que "pimenta nos olhos dos outros era refresco laboratorial para ele"! É, a verdade é que a roda relativa da economia planetária continua girando (+ 600 milhões de almas consumido na Índia e na China desde o início do presente século). Tenho a impressão que, daqui para frente, eles terão que se acostumar com as ditas "restrições externas". A idéia dele é tão estapafúrdia quanto inocente e, pior, dirigida para um alvo errado! Querem coordenação, é de morrer de rir: não entendem que deixaram de ser dinâmicos e que, por isso mesmo, não poderão mais prover estabilidade em escala global!