quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Esperança Neoclássica Vs. Paternalismo Desenvolvimentista

Há uma inversão de papéis curiosa quando se fala do comportamento e tomada de decisão dos pobres e pouco educados. Na visão comum, a teoria neoclássica do desenvolvimento é associada ao neoliberalismo e estado mínimo. Entre outras generalizações, é vista como de direita, contra a redistribuição e elitista. E no entanto há na teoria neoclássica uma plena confiança na capacidade de tomada de decisão dos desfavorecidos. Decisões “estanhas” (trabalho infantil, crediários absurdos a lá Casas Bahia, n. de filhos, apoio a arranjos políticos coronelistas) são sempre compreendidas em função de restrições (credito, seguro, vulnerabilidade a pressões locais, etc...). Em parte isso é uma decorrência natural do método: indivíduos são modelados como maximizadores independentemente do seu capital físico ou humano.

Por outro lado esta é uma das áreas mais “empíricas” da economia mainstream, com ênfase maior na identificação de relações causais (avaliação de programas, promoção de experimentos). Estas avaliações mostram o sucesso de programas que as relaxam as restrições às quais estão submetidos os pobres sem restringir muito as escolhas individuais (promoção de seguros , crédito e transferências em dinheiro).

Já uma outra vertente racionaliza estas escolhas "estranhas" como erros de decisão. Indivíduos, principalmente os pobres por não terem estudado, não compreendem bem os problemas que enfretam: os juros embutidos no crediário (como defende Eduardo Giannetti no seu último livro), as consequências da gravidez na adolescência, os impactos de sua alienação política. De forma igualmente grosseira podemos associar esta visão a certo “paternalismo desenvolvimentista”, que justifica uma ação estatal mais forte com tecnocratas decidindo pelas pessoas o que é melhor para elas. E no entanto esta visão é vista como mais pró-pobre e de esquerda. , apesar de tão pouca confiança no livre arbítrio dos que se quer ajudar.

Se as pessoas fazem ou não erros de decisão e se eles são mais comuns entre os pobres é uma questão fundamentalmente empírica (alguém sabe o que a economia comportamental diz a respeito?). Mas não se trata de uma divergência acadêmica inócua pois de cada visão decorrem prescrições de política públicas diferentes. Mais Bolsa Família ou Política Industrial?

28 comentários:

Guilherme Lichand disse...

Assunto interessante! Só não entendi a pergunta final... acho que o melhor seria 'mais Bolsa Família ou enrollment obrigatório?'... acho que a questão vai um pouco além no caso da perspectiva paternalista para recair na natureza do papel do Estado. Se o Estado é tão somente um corretor de externalidades, então ele pode obrigar enrollment independentemente da razão pela qual os indivíduos escolhem menos educação (dado que acumular HK gere externalidade positivas), e aí a distinção é irrelevante. Já com relação a comprar uma geladeira pelo preço de duas, já não é claro que um Estado corretor de externalidades deveria atuar.

Abs

Lucas disse...

Associar Eduardo Giannetti à corrente "paternalista desenvolvimentista" pode ofender ambos...

Anônimo disse...

Gostei muito do texto!

Michel disse...

Economia comportamental e renda....

Bom, do que eu conheço disso, até dá pra criar um argumento. Existe a seguinte evidência: taxistas, em dias com menos passageiros, trabalham mais (apesar de trabalhar mais nesses dias ter menor retorno e ser mais "chato" - pq tem q ficar procurando passageiro). Em geral, a justificativa é: "eu tenho que chegar na minha renda diária de x dólares" (não é restrição de crédito, pois o negócio foi visto em NY, em que uma licensa de taxi custa algumas centenas de milhares de dólares).

Bom...se você fizer a seguinte interpretação: se a renda diária de x for menor, o cara vai trabalhar menos em média e tomar menos riscos em média (argumento de prospect theory), você ganha o argumento paternalista.

Mas eis a segunda parte da evidência: taxistas mais experientes enfrentam menos esse efeito (pois eles aprendem que esse comportamento é subótimo no sentido de maximizar receitas com o taxi). Acho difícil dizer que pobres não aprenderiam que esse tipo de comportamento é subótimo.

Para outras coisas de economia comportamental e desenvolvimento, principalmente ligado à questões do tipo: incapacidade de manter atenção ligada toda hr/memória limitada e coisas do tipo, uma sugestão é o Sendhil Mullainathan, de Harvard, que trabalha muito com isso. Mas disso daí...até onde eu lembro, sairão implicações pouco paternalistas.

Desculpa a mensagem longa...abs

Paula disse...

muito interessante! na minha opinião os ricos não sabem tomar melhores decisões que os pobres. estes tomam suas melhores decisões frente às oportunidades que possuem, que são poucas e injustas.
alguém acha que os ricos são mais racionais?

Paula disse...

outra lembrança... livro Nudge, sobre "paternalismo libertário". esqueci o nome do autor, é americano. trata de como "incentivar" as melhores tomadas de decisão.

Rogerio Ferreira disse...

Nem bolsa familia nem politica industrial.

Bernard Herskovic disse...

Bom post.
Bolsa família ou política industrial? um pouco dos dois....
é curioso com as coisas são invertidas: bolsa familia é tida como de esquerda, porém tem um princípio "liberal/direitista" muito forte.

lucas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lucas disse...

Guilherme, é verdade faltou listar as externalidades na lista de causas consideradas e a pergunta final extrapolava um pouco...

Michel, valeu pelas referências.

Paula, já ouvi esta idéia do “paternalismo libertário”, parece que é uma das ramificações para formulação de política da economia comportamental. Mas lembro o que o Wade Hands (um dos principais caras de HPE/Metodologia no mundo) disse num seminário na USP quando o tópico surgiu: “para mim ligar as duas coisas é a maior estratégia para deslegitimar a economia comportamental. Você vai e associa esta linha que estuda o comportamento humano a uma coisa totalmente inaceitável no espectro político dos EUA. I.e., diz que segundo a economia comportamental o estado tem que intervir na liberdade do indivíduo, logo todos já rejeitam de cara a economia comportamental”

Pedro disse...

É tudo uma questão de preferência. Faça a sociedade o que ela quiser.

Acredito apenas que os programas devam ser avaliados com relação aos seus objetivos e custos. Pessoalmente acredito que não deva haver política industrial e deva haver Bolsa família, mas não pretenciono que minhas preferências sejam compartilhadas por todos.

ps.: Lucas, eu havia escrito algo bem mais detalhado, comentando os argumentos e tal, mas ai dei um voltar na pagina e perdi tudo ...

Luiz Felipe Lopes Cardoso disse...

Pelo menos estào monetizando o site com AdSense.

Guilherme Lichand disse...

sim, todo o dinheiro arrecadado será revertido para fins sociais

até agora acho que já temos 2 cliques

Anônimo disse...

"bolsa familia é tida como de esquerda, porém tem um princípio "liberal/direitista" muito forte."

desde quando BF eh vista como de esquerda?!

"O"

Anônimo disse...

gostei do texto. É realmente um tema bom de debater, com muitas nuances. Acho que v. tocou em pontos importantes, que dividem opiniões e, realmente, tornam certas posições contraditorias, pelo menos à primeira vista.
O que a economia comportamental tem a dizer a respeito dos "erros" de decisão? É difícil generalizar, mas o livro Nudge, de Sunstein e Thaler, tem algo a dizer a partir de resultados de pesquisa. Os autores defendem um paternalismo light, ou seja, a conveniência de "nudge" (cutucar) as pessoas na direção de escolhas socialmente mais desejáveis, como uma alimentação saudável ou tecnologias ambientalmente + adequadas.

A.M.

Guilherme Lichand disse...

pois é, "nudge" argumenta no sentido de explorar vieses cognitivos para induzir decisões sem restringir o conjunto de escolha; é uma postura com apelo forte no Governo Obama (o que lá eles chamam de pragmatismo libertário).

É mais relevante, mais uma vez nesse caso, tentar compreender qual a Natureza do papel do Estado, porque seu modo de atur é uma mistura das duas coisas.

"O", Bolsa Família é o carro-chefe do Governo Lula, não vejo que possa não considerá-lo uma iniciativa de esquerda.

Abs

MP disse...

Vou expor aqui as perguntas que entendi estarem sendo debatidas e em seguida dar minha contribuição.
i)O processo decisório de pessoas de classes mais baixas é pior do que dos outros?
ii)Grau de racionalidade depende de renda?
iii)O governo deve intervir?
Minha opinião:
i)Quando a tomada de decisão envolve o uso de ferramentas não triviais, como a estatística ou finanças, acredito que os que não dominam tão bem tais ferramentas tomam decisões erradas. Logo, o parâmetro causal aqui é falta de educação e não pobreza, embora possa haver correlação. Além disso, até os que dominam o método erram, vide behavioral finance, mas acho que erram menos do que leigos.
ii)Errar por falta de conhecimento não significa irracionalidade e sim uma falha no entendimento do problema, embora o resultado possa indicar preferências não usuais. Assim dito, acredito que se o agente entendesse de fato o problema enfrentado ele tomaria decisões acertadas.
iii)O governo deve intervir "possibilitando educação" e não regulando a taxa do crediário.
Indico esse vídeo http://www.youtube.com/watch?v=mpXShHdQGcQ e pergunto se o problema do nosso amigo é irracionalidade (ou restrições usuais) ou um processo decisório ruim derivado de fatores não usuais quando enfrenta suas escolhas, supondo que ele maximiza u($$+ , humilhação-).
Resumo: alguns problemas só são compreendidos por poucos e talvez o financista de uma varejista incorpore isso na sua função objetivo ao definir uma taxa.

Michel disse...

MP,

Com relação à economia comportamental...os experimentos mais clássicos, em geral, são feitos com alunos universitários de vários cursos. É comum ver gente que faz graduação/pós graduação em estatística/matemática e economia errando probabilidades e tendo os vieses de decisão "irracional"* exatamente da mesma forma que psicólogos/sociólogos (e, em geral, estamos falando de alunos de Princeton, Berkeley, CalTech...). É muito raro ver, nessa literatura de economia comportamental algum resultado dependendo de educação das pessoas.

Minha opinião (em parte, roubadas do Glaeser e de outros) - em geral, o ponto do Lucas é preciso: a literatura de economia comportamental gera prescrições de política altamente paternalistas (do ponto de vista tradicional). Porém, (i) uma vez que a gente considera que os mesmos vieses de irracionalidade se aplicam à decisões políticas pelos eleitores, a gente vai pro extremo oposto do paternalismo; (ii) uma vez que a gente considera que existe, em muitos casos, aprendizado (apesar disso não valer para todos os casos), as prescrições de política com base em vieses comportamentais se tornam mais limitadas (mas potencialmente relevantes para novos mercados, por exemplo).

* Irracional tá entre aspas pq podemos estar considerando somente uma função objetivo diferente...mas que a longo prazo, prejudica o cara. Exemplos disso são os modelos com payoff de dissonância cognitiva (que levam as pessoas a rejeitar informação otimamente mesmo num ambiente "teoria do consumidor", o que nunca ocorre com utilidade esperada num ambiente "teoria do consumidor") ou o modelo de prospect theory do Kahneman & Tversky (que alteram a aversão a risco do sujeito de acordo com "consumo relativo a um ponto de referência").

MP disse...

Caro Michel,

Parece que concordamos: "Além disso, até os que dominam o método erram, vide behavioral finance, mas acho que erram menos do que leigos." Mesmo assim me parece que vc está querendo refutar minha argumentação no seu 1° parágrafo, não entendi tão bem.
Acho difícil vc achar os controles para fazer o teste, mas não é pq alunos do mit erram que leigos não erram mais ainda (como não sei de ninguém que tenha testado escrevi "opinião" no meu texto).
Talvez não tenha ficado claro um ponto: acho que alunos do mit também não entendem alguns problemas de imediato, e muitos testes são feitos de modo que a chance do auditório não entender ou "agir irracionalmente dadas restrições de tempo para resposta entre outras" é maximizada.
Como exemplo cito um teste feito na sua universidade, do qual participei junto com outros alunos de mestrado. O teste consistia em fazer escolhas de alocação de carteira (com 2 ativos) ao longo do tempo baseado em resultados de variáveis aleatórias de retorno de cada ativo. Havia duas variáveis aleatórias e a resposta ótima se vc soubesse a fdp era, inequivocamente, alocar tudo em 1 ativo. Entretanto, não conheço ninguém que tenha alocado dessa forma. Mas me pergunto, será que o modo como o teste foi estruturado não induz ao erro. Nesse caso, acredito que sim, pois vc nem tinha tempo para fazer contas. Além disso, se falassem: há duas variáveis aleatórias, me diga qual tem 1° momento maior e qual tem 2° momento menor, talvez o índice de acerto tivesse sido bem maior. Resumindo, o meu argumento no texto anterior é o seguinte:as pessoas cometem erro por não entender o que está acontecendo e por falta de capacidade analítica por si só.
Por último, acho que o debate proposto é muito mais voltado para a relação processo decisório - renda do que para public policy, até pq prefiro fazer prescrição de política apenas depois de entender o problema a ser combatido.
Uma provocação seguindo a linha dessa discussão seriam os temas:
i)a economia do erro (mais geral),
ii)entender o não saber

Pessoas escreveram best-sellers e ficaram consagradas ao ajudar-nos a compreender as causas de nossas falhas. Infelizmente esse é um mundo mais pantanoso para o uso da matemática e para prova de teoremas, dado que o erro em si nunca parece ser a regra.

Michel disse...

Caro MP, seguem alguns comentários a trechos seus:

"Resumindo, o meu argumento no texto anterior é o seguinte:as pessoas cometem erro por não entender o que está acontecendo e por falta de capacidade analítica por si só."

É exatamente isso que eu estou falando que está errado no meu primeiro texto. Como no meu comentário anterior, eu sei de pessoas que testaram essas coisas. Posso te dar alguns exemplos de testes:

(i) Você pergunta em salas de estatísticos, economistas, etc. de Berkeley (eu participei desse teste): você é um motorista acima da mediana? 90% responde que sim (indicador de má formação de crenças de pelo menos 40% da turma, já que é impossível 90% dos motoristas estarem acima da mediana).

(ii) Você pergunta para a mesma turma: qual é a chance de você se tornar um alcólatra? Quais são as chances da pessoa média na turma virar alcólatra? É sistemático ver as pessoas reportando chances de virarem alcólatras de 30% e dos outros virarem alcólatras de 50-60% (ou seja, muitos potenciais alcólatras, como visto pelos outros, desaparecem). Esse resultado aparece em diversos públicos diferentes, se o seu medo é informação assimétrica sobre quem está na turma.

Se fazem dezenas de perguntas como essas relacionadas a auto-confiança, todas com padrões parecidos. Você verá como padrão que homens são mais auto-confiantes que mulheres. Não existe padrão nenhum de educação/poder analítico...estatísticos erram na MESMA PROPORÇÃO que psicólogos AS MESMAS PERGUNTAS FEITAS (o que mostra que está errado que poder analítico permite mais acerto nessas situações). Além do mais, essas perguntas me parecem bem claras, sem aleatoriedade para te induzir ao erro (isso é o ponto no qual a maioria dos papers dessa área gasta mais página: para mostrar que as pessoas sabiam o que estava acontecendo). Agora, você pode se perguntar: isso permanece em contextos não experimentais?

(i) Considere uma amostra de investidores (com uma média investida de 15-20 mil dólares), faça o seguinte teste: compare a performance da carteira deles de fato durante 1 ano com a performance que eles teriam se eles segurassem a posição do início do ano durante o ano todo. Isso pode ser visto como uma medida imperfeita de over/under trading (over se a diferença acima é negativa, under se é positiva). Em média, as carteiras de fato rendem MENOS que as carteiras constantes nas posições do início do ano (indicando, de alguma forma imperfeita, overtrading). Em média, homens (controlando-se para outras coisas) fazem muito mais overtrading que mulheres. Isso é um resultado coerente com muita autoconfiança gerando overtrading, e na minha cabeça, talvez por eu não ser de finanças, não vêm muitas explicaçoes alternativas para homens fazerem mais overtrading que mulheres (só pra avisar, eles têm na base de dados tamanho inicial da carteira de cada indivíduo, podendo controlar para tamanho inicial do investidor).

Em outras palavras, existe, em muitos desses experimentos, um desenho cuidadoso exatamente pra evitar as tosqueiras que você citou que, de fato, acontecem em muitos experimentos. Esses experimentos de auto-confiança são um caso de padrões de formação de crença/comportamento irracional com padrões. O que me leva a segunda resposta, ao trecho:

"Infelizmente esse é um mundo mais pantanoso para o uso da matemática e para prova de teoremas, dado que o erro em si nunca parece ser a regra."

A tua frase é exatamente o que behavioral economics não é: o que o campo tenta fazer é uma junção de psicologia social (que é, colocando de forma vulgar, como feito nos EUA, achar padrões de irracionalidade/comportamento) com economia. A idéia é buscar padrões de irracionalidade, e muitas vezes, eles acham. Já se fazem estudos sérios sobre o que você propôs como provocação (a economia do não saber e dos erros).

Por fim, o debate foi motivado de início por uma questão de policy (política industrial ou paternalismo), e não pela simples discussão comportamental. Daí os meus comentários sobre policy.

Desculpa o texto grande, abs

MP disse...

Caro Michel,

Vou comentar aqui apenas os pontos que acho construtivos para o debate.

O seu exemplo do motorista acima da mediana não tem nada a ver com educação e necessidade de ferramentas estatísticas, logo não é um teste.
O seu exemplo de overtrading muito menos. Para mim a pergunta deveria ser: 2 carteiras de traders iguais em todos os aspectos, menos educação financeira têm o mesmo turnover, dado que turnover é ruim?
Se a sua estratégia foi mostrar o q foi feito, ou seja, acharam divergência de comportamento entre sexos por exemplo, para dizer que
"Não existe padrão nenhum de educação/poder analítico...estatísticos erram na MESMA PROPORÇÃO que psicólogos AS MESMAS PERGUNTAS FEITAS (o que mostra que está errado que poder analítico permite mais acerto nessas situações)." acho que temos uma diferença de interpretação de testes e de qual seria o teste apropriado, pq na minha opinião, nenhum dos q vc falou o é.
Portanto, você ainda não me deu nenhum exemplo em que testaram o que eu falei, e mesmo assim diz que estou errado.
Por último, a questão do que é mais relevante nesse post só pode ser respondida pelo nosso amigo Lucas.
Um abraço

Guilherme Lichand disse...

bem interessante, Michel!

Outra coisa curiosa sobre a diferença entre os sexos é que programas de transferência de renda para famílias no mundo todo têm caminhado no sentido de alocar dinheiro para a mãe, ao invés do pai, porque isso está associado a maior investimento em HK dos filhos e consumo de ítens básicos, e menos consumo de álcool e cigarros.

Claro que essas diferenças poderiam ser explicadas tão somente em termos de preferências (embora eu ache esquisita essa diferença sistemática entre sexos... a mulher privilegiar os filhos é biológico?); mas pensei que podemos pensar em termos de vieses cognitivos também. Se consumir álcool é sinônimo de status (segundo Magri, 2009, isso é verdade especialmente em cidades pequenas, e do interior do Nordeste), então o fato de homens serem mais auto-confiantes pode significar que eles estejam inclinados a buscar mais status do que mulheres idênticas em todos os outros atributos. Que tal?

Michel disse...

MP, eu botei dois casos de avaliação de probabilidades (e existem outros) em que estatísticos têm a mesma (má) performance que psicólogos e sociólogos. Pelo teu comentário, ou você duvida que estatísticos tenham melhor capacidade analítica para avaliar probabilidades/ estatísticas de alguma distribuição (tais como a mediana)/ momentos, ou você duvida que as questões que eu coloquei sejam relacionadas a probabilidades /medianas /momentos. Apesar de que, pra mim, é bem claro que nenhuma das dúvidas seja razoável, deixa eu dar mais um exemplo, para acabar com dúvidas:

(i) 1% da população tem AIDS. Tem um teste que acerta se o indivíduo tem AIDS com prob. 99%. Você faz o teste e o teste dá que você tem AIDS. Qual é a probabilidade de você ter AIDS?
A grande maioria das pessoas erra essa pergunta. Na verdade, eu participei de um teste desses numa turma com mais de 100 pessoas de economia/estatística, e se eu não me engano, não mais que 2-3 acertaram. Mais ainda, estatísticos e psicólogos têm mesma tx de erro. Até onde eu sei, essa é uma pergunta de probabilidade não? Estatísticos deveriam ter mais capacidade analítica para resolvê-la que psicólogos/sociólogos.
Obs.: Resposta correta: Seja t = teste deu positivo
P(AIDS|t)=P(t|AIDS)*P(AIDS)/{P(t|AIDS)*P(AIDS)+P(t|nAIDS)P(nAIDS)}
= 99%*1%/{99%*1%+1%*99%}=50%. Adivinha o quanto a maioria chuta...

Com relação ao caso de homens vs. mulheres no overtrading, se você acredita que educação financeira /entender o que está se passando é não correlacionado com sexo, o teu experimento é absolutamente desnecessário para confirmar que existem erros de avaliação independente de capacidade analítica e de não entender o que está se passando. Se esperarmos que mulheres tenham menos capacidade analítica para perceber que estão fazendo overtrading/menos educação financeira (afinal, existem menos mulheres em faculdades ligadas à finanças - acho que não preciso citar estudo pra isso, apesar deles existirem - e existe preconceito contra mulheres na educação), esperaríamos que elas cometeriam mais erros de avaliação e fariam mais overtrading, o que é o resultado oposto ao encontrado. Se controlarmos para esse fator, o resultado daria ainda mais forte, o que volta a confirmar o meu ponto: existem erros de avaliação independentes de capacidade analítica e de falta de compreensão do que está se passando. Mais ainda, esse teste vem a mostrar que erros de avaliação também ocorrem quando as pessoas se deparam com situações do mundo real, no qual os seus erros têm custos.

Você entendeu por que está errado?

Michel disse...

Lichand, acho que você tá certo. Mas nem precisa passar pelo status, acho...é só pensar que um cara vai entrar no bar e pensar: eu vo conseguir beber mais que todo mundo, duvido alguém me superar. É menos provável que você veja uma mulher fazendo isso né (apesar de existirem mulheres que sabem beber, e mulheres autoconfiantes) ...exatamente por ter menos autoconfiança e pensar menos que vai ser capaz de superar todo mundo na quantidade de bebida.

Você pode entender por autoconfiança também o fato de que mulheres poupam mais/consomem itens mais básicos/alocam mais para educação do filho, por exemplo, porque a mulher pode pensar: "eu ter os itens básicos não é tão garantido", ou usar o investimento no filho como uma forma de seguro para a velhice, enquanto que homens (na média) pensarão que estão garantidos no consumo de itens básicos e na velhice, e com isso, gastar com produtos mais supérfluos... ou até acreditar que alcool/fumo em excesso não lhe fará mal/não o tornará viciado, apesar de fazer mal e viciar qualquer pessoa.

Referências...Akerlof e Dickens "The Economic Consequences of Cognitive Dissonance"; Koszegi e Gruber "Is Addiction Rational? Theory and Evidence" (o segundo vale pela implicação normativa da teoria...)

MP disse...

Michel, temos uma clara divergência em relação à definição de parâmetro causal. Mesmo assim agradeço pelos seus comentários pois aprendi bastante.
Só quero continuar a discussão de overtrading após ler o paper, vc poderia me passar a referência, por favor?
Por fim, gostaria de saber a referência do seu teste de AIDs, pois achei muito interessante.

Um abraço,
Marcos

Michel disse...

Com relação a behavioral finance, eu vo te passar as seguintes referências:
(1) Who Makes Acquisitions? CEO Overconfidence and the Market's Reaction (Ulrike Malmendier, G. Tate).
Journal of Financial Economics, July 2008, vol. 89(1), pp. 20-43.

(2) CEO Overconfidence and Corporate Investment (Ulrike Malmendier, G. Tate).
Journal of Finance, December 2005, vol. 60 (6), pp. 2661-2700.

(3) Boys Will be Boys: Gender, Overconfidence, and Common Stock Investment (Brad M. Barber, Terrance Odean). Quarterly Journal of Economics, (2001) vol. 116 (1), pp. 261-292. (esse foi o que você pediu).

A referência clássica geral de overconfidence é:
(4) George Akerlof, William Dickens, "The Economic Consequences of Cognitive Dissonance", AER (1982) Vol 72 (3), pp. 307-319

A referência do teste da AIDS foi uma aula que eu fiz, participei dum questionário distribuido na turma (de economistas principalmente, mas eu sei que tinham estatísticos e outros interessados), e que foi citado que foi um teste amplamente feito já...com resultados parecidos.

Abs

Anônimo disse...

"Você pode entender por autoconfiança também o fato de que mulheres poupam mais"

Entao minha mulher eh bem autoconfiante!

Falando serio, na questao do overtrading, eu sei que eu peco por isso, mas eu contabilizo como consumo. E sim, eu tomo riscos na minha carteira pessoal pelo gosto de poder mostrar para os outros que tenho um retorno x% mais alto que o indice.

Michel disse...

Anônimo...só acho que você não entendeu a medida de overtrading...ela é dada por rendimento menor que o que você obteria se você sustentasse a mesma carteira durante o ano todo...e não tomar mais risco e render mais....