segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ortodoxia e heterodoxia

O meu primeiro post será sobre o artigo de T. Lawson, The nature of heterodox economics, publicado no Cambridge Journal of Economics 2006, 30, p.483-505.

O autor começa o artigo interpretando a heterodoxia como uma oposição à ortodoxia e investiga a essência do mainstream. Inicialmente, ele apresenta duas interpretações para a ortodoxia:

A primeira apresenta três elementos chaves aos trabalhos ortodoxos: “one component of most common strategy is everywhere to stipulate that human beings are rational (meaning optimizing) atomistic individuals. A second is the construction of theoretical set-ups or models specified to ensure that (typically unique) optimal outcomes are attainable.” E o terceiro surge como necessidade: “If the claim is that mainstream economics seek to defend the economic system per se, something more is required to guarantee this result. This, it is usually supposed, is achieved by the commonplace construction of an equilibrium framework […]”.

A segunda seria: “An obvious alternative hypothesis […] is that, if there is anything essential to the mainstream tradition of modern economics, it is merely a commitment to individualism, coupled with the axiom that individuals are everywhere rational (optimizing) in their behavior”

Logo depois, o autor questiona a veracidade dessas interpretações/definições de forma crítica comentando a existência de trabalhos ortodoxos mais modernos que descartam algumas das hipóteses/resultados usados nas abordagens acima.

Na verdade, a idéia central do autor sobre a ortodoxia é: “I believe there is a feature of modern mainstream economics that is essential to it. And it is an aspect so taken for granted that it goes largely unquestioned. This is just the formalistic-deductive framework that mainstream economists everywhere adopt, and indeed insist upon.[…] The truth is that modern mainstream economics is just the reliance on certain forms of mathematical (deductivist) method. This is an enduring feature of that project, and seemingly the only one; for the mainstream tradition it is its unquestioned, and seemingly unquestionable, essential core”.

Ou seja, para Lawson, o que identifica a ortodoxia é a unicidade no método, o uso de um raciocínio matemático-dedutivo. A partir disso, ele esclarece a natureza da heterodoxia:

“What follows for our understanding of heterodox economics? If the latter is first and foremost a rejection of modern mainstream economics, and the latter consists in the insistence that forms of mathematical–deductive method should everywhere be utilized, then heterodox economics, in the first instance, is just a rejection of this emphasis.

Notice that this does not amount to a rejection of all mathematical–deductive modeling. But it is a rejection of the insistence that we all always and everywhere use it. In other words, heterodox economics, in the first instance, is a rejection of a very specific form of methodological reductionism. It is a rejection of the view that formalistic methods are everywhere and always appropriate.

To say more about the nature of the heterodox traditions of modern economics, I think it is clear that we need to explain this opposition. And, as noted, we are concerned here with explaining an opposition that is sustained and enduring.

One conceivable explanation, I suppose, is that heterodox economists believe that methodological pluralism is desirable per se and no more needs to be said. But is that really all there is to it? After all, in some fields of physics, such as super string theory, mathematical methods seem actually to be universally applied, but without any sign of a heterodox opposition. In economics, by contrast, there clearly is a heterodox opposition to the mainstream. And the phenomenon to explain is not just that a heterodox opposition exists, but that it is, as noted, relatively widespread, firm, often highly vocal and enduring.”

Lawson afirma que a diferença entre ortodoxos e heterodoxos reside no método, no questionamento de um método único.

Eu recomendo a leitura do texto. O que eu tentei fazer nesse post é ilustrar um pouco o texto dele, tipo uma propaganda. Claro que o texto vai além do exposto, mas procurei me ater ao debate do último post, Bresser e o ovo do Dragão (ou melhor, dos comentários...).

O que vocês acham da visão de ortodoxia apresentada?

10 comentários:

Rafael disse...

Concordo. Ortodoxia é o método hipotético-dedutivo. Igual a física.
E pra mim só isso é método. O resto é papo. Repetindo, PARA MIM, só isso é método. O resto é papo.

Guilherme Lichand disse...

As teorias de ciclos reais fazem parte da ortodoxia?

Tomemos o artigo 'Resuscitating Business Cycles', de King e Rebelo (2000) - NBER. O artigo se presta a, a partir da observação histórica de variáveis relevante, a reformular modelos da tradição anterior de RBC de modo a obter modelos capazes de produzir previsões mais poderosas (numa perspectiva pragmática).

Esse método não pode ser descrito como puramente hipotético-dedutivo. Ao meu ver, é um dos exemplo mais frutíferos de abordagem plural na atividade de pesquisa econômica: o pluralismo dentro da cabeça do cientista, e não apenas no campo, em que diferentes pesquisadores perseguem diferentes objetivos através de métodos distintos, mas nunca híbridos.

Ocorre que é pouco trivial como utilizar a mesma base filosófica que leva à rejeição de um método único na ciência (ausência de posição privilegiada para acessar a 'verdade objetiva') para justificar uma abordagem plural dentro da cabeça do cientista (e não apenas no campo científico)... afinal, o pluralismo seria mais produtivo para aproximar o que, na total ausência de uma realidade objetiva?

Um belo desafio teórico para os interessados na metodologia das ciências sociais... posso postar mais sobre isso depois.

Rafael disse...

Discordo frontalmente.

Uma coisa é você olhar para a realidade para calibrar valores de parâmetros ou inserir modificações marginais, como por exemplo uma dinâmica de estoques diferente, numa base teórica (neste caso, do equilíbrio geral). Da maneira como é feito em RBC, continua completamente merecendo a etiqueta "método hipotético dedutivo".

Outra coisa é utilizar a história para argumentar a respeito de alguma coisa.

Anônimo disse...

O blog dos três porquinhos

Anônimo disse...

Heterodoxia eh uma desculpa para escrever discurso politicamente engajado sem ter que se restringir aa disciplina ortodoxa.

Tiago Caruso disse...

Anônimo,
é uma enorme injustiça com o Lucas você não considerá-lo um dos porquinhos.

Anônimo disse...

Ainda sobre os porquinhos:

é que seteris paribus

se 3 vale 0;0-1 não existe...e nessa conta tanto faz..

Rafael disse...

é, Seteris paribus...

Anônimo disse...

Duas histórias sobre o Bresser:

1 - A obra sobre administração dele é boa. Ele "escreveu" bons livros sobre Reforma do Estado. Porém, o que dizem é que, na verdade, esses livros foram realmente escritos por sua então assessora no Ministério do Planejamento, Cláudia Costin.

2 - Em 1987, quando foi Ministro da Fazenda, ele era licenciado do Pão de Açúcar (a rede de supermercados, é claro) e fez um plano heterodoxo, que incluiu o expurgo de parte da inflação no reajuste dos salários (que eram, então, indexados). Em 1989, ele foi demitido do Pão de Açúcar no meio de uma reestruturação, e, segundo alguns boatos, ele teria entrado na justiça pedindo, entre outras coisas... indenização pelas perdas salariais determinadas pelo Plano Bresser.

Daniel disse...

Faço economia na rural, e preciso fazer um trabalho acerca da abordagem ortodoxa e heterodoxa da economia, ressaltando seus modelos, além de explicar o modelo econômico de cada um desses modelos.
Se vocês puderem indicar bibliografias que possam me ajudar.