quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Simples ou complicado?

No meu post de estréia no Espectro Econômico, quero compartilhar com o amigo leitor uma pequena predileção: os argumentos que parecem estupidamente simples - seja porque evidentes ou, ao contrário, ridículos, impossíveis! -, mas que exigem um esforço enorme para serem justificados ou desarticulados, e que muitas vezes, na sua simplicidade, estão associados a implicações de política econômica de dimensões monumentais.

É o caso da Lei de Say, que só cito aqui em caráter ilustrativo. Nos tempos de graduação, alguns colegas resolveram reunir-se semanalmente para ler e discutir um pouco da História do pensamento econômico, em especial o contexto - político, econômico e, sobretudo, das idéias - no qual surgiram algumas obras seminais. Passando por Malthus, Ricardo e Mill, ficou clara a necessidade de estudar a Lei de Say com mais cuidado. "Toda a oferta gera sua própria demanda", afirma Say num 'Tratado sobre os mercados' de pouquíssimas páginas, a maior parte delas criticando as tropas de Napoleão que atiravam ao mar a produção que julgavam excessiva, que tolos! Ignoravam que toda a oferta, ao empregar os meios de produção, gera renda exatamente suficiente para que toda a produção seja vendida.

Um argumento simples, e imediatamente descartável diante das evidências da Crise de 1929, mas que exigiu 6 meses de leitura para que fosse possível entender com clareza qual princípio estava ausente no raciocínio lógico de Say... o leitor pode pensar que isso se deveu às limitações intelectuais do que vos fala, do que não discordaria, a não ser pelo fato de que grandes mentes como Schumpeter , Ricardo, Malthus e Mill dedicaram capítulos de suas obras a debater se o princípio era válido, sem limitar-se a uma economica de trocas.

Por fim, concluímos que a possibilidade de entesouramento, isto é, guardar dinheiro debaixo do colchão, é que tornava o princípio inválido. Do contrário, poupança e investimento são tão somente consumo diferido no tempo, e toda oferta gera sua própria demanda. Essa conclusão simples significa que, diante da possibilidade de entesouramento, o equilíbrio entre oferta e demanda não mais é garantido pelas forças de mercado. Em seus pronunciamentos na rádio, era frequente ouvir Keynes conclamar às senhoras que gastassem o dinheiro que mantinham nas gavetas diante da queda dos preços generalizada.

Essa introdução - mais longa do que eu gostaria - serve para que eu deixe aqui um argumento simples como alimento para o pensamento do leitor, restando o desafio de justificá-lo ou descartá-lo com base no raciocínio de um economista. O livro 'Mais sexo é sexo mais seguro', de Steven Landsburg, sucesso absoluto de venda nos Estados Unidos e tido como o novo Freakonomics, traz em um de seus primeiros capítulos um argumento curioso: um avarento é melhor para a sociedade do que um filantropo, uma vez que o primeiro, ao gastar menos, influencia os preços relativos, ou a taxa de juros, até que haja demanda para o excedente.

Segue um trecho: "Coloque um dólar no banco e baixará as taxas de juros apenas o suficiente para que alguém em algum lugar possa gastar esse dólar em férias ou na reforma da casa. Coloque a mesma quantia debaixo do colchão e (reduzindo efetivamente o suprimento monetário) estará baixando os preços o bastante para que alguém possa tomar um café a um dólar após o jantar."

Landsburg argumenta que o avarento, ao não gastar, gera uma externalidade via sistema de preços sobre toda a sociedade, aumentando o bem-estar de todos os demais. Se seu ponto aparentemente simples se sustenta, algo bastante mais relevante vem à tona, uma vez que o Estado, visto como sistema jurídico que regulamenta uma dada sociedade, tem como função básica produzir normas que permitam internalizar as externalidades fruto da interação social (sejam de ordem econômica ou não).

Você, o que acha?

13 comentários:

Guilherme Lichand disse...

subsídios para os avarentos?

lucas disse...

Cara, seu texto e uma defesa de tese na UFRJ q eu assisti recentemente me fizeram pensar se ler e entrar nos grandes debates dos clássicos (Ricardo, Malthus, Mill, Marx, Shumpeter), fazer esse 'tour de force', é ou nao necessário
á formação de um bom economista. Sei lá, deu aquela vontade, pareceu interessante, teórico difícil e profundo. Deixando de lado a possibilidade de superação positiva, talvez isso nao seja mais necessário pq há muito mais divisão do trabalho na produção da ciência economica hoje.
Por isso nao teria problema formar 'idiot savants' como nos.

Tiago Caruso disse...

Guilherme,
Se eu entendi bem o ponto, o próprio Keynes contestou isso. O avarento seria como destruir moeda, enquanto o poupador emprestaria. Em tempos de demanda superaquecida seria melhor o avarento enquanto em recessões credores são preferíveis. Não me convenceu, mas vou ler o livro.

Lucas,
temos um curso de mestrado sobretudo instrumental. Você já sabe ler. Se quiser pegue os clássicos, uma bermuda xadrez, um cachimbo, vai para livraria, pede um café irlandês e leia-os. Você não precisa de um professor para isso.Recomendo que você o faça se você achar que isso faria com que deixássemos de ser "idiot savants". Eu acho que é preciso uma leitura muito melhor.

Alex disse...

Guilherme:

Se preços fossem flexíveis, seu avarento reduziria o nível geral de preços o suficiente para trazer a economia de volta ao pleno-emprego.

Se preços não são flexíveis (e aí vai uma enorme literatura sobre possíveis motivos para rigidez de preços, de custos de menu, a quase-racionalidade, contratos sobrepostos, etc), o efeito é uma queda do nível de produto.

Abs

Alex

Rafael disse...

Lucas,
No curso de engenharia da ufrj eles estudam a história do pensamento das edificações? E no de medicina, rola aquela matéria de medicina política, com o professor defendendo arduamente a homeopatia? E no de economia, tem alguma coisa do tipo? Tem. Será que só eu acho isso absurdo?

lucas disse...

Caruso e Rafael,
Em primeiro lugar várias coisas do que estudamos (grande parte do curso de análise) não vão ser usadas por nós e mesmo assim tem um papel formativo. Porque não poderia ser assim com a os embates teóricos dos "clássicos"?
Segundo, achar que ler os clássicos é fácil, que dá pra fazer sozinho de shorts na praia, é típico da arrogância de quem nunca tentou fazê-lo.
Terceiro vcs obviamente supõem que sempre há resolução 'positiva' de controvérsias, o que não é verdade. Nesta estou com Pérsio Arida que concorda que uma formação mais equilibrada entre "fronteira" e clássicos é melhor.
Tem um quarto ponto, do Krugman naquele texto sobre HPE do “high development”: as limitações de modelagem forçaram a perda de muitas idéias importantes que hoje em dia, com o avanço do instrumental, poderiam ser formalizadas. Por isso além de tudo pode ser um bom "intuition pump".

Rafael disse...

Eu reforço a opnião de que ler os clássicos é fácil e acrescento que os críticos da fronteira não sabem matemática (e na maioria dos casos não tem mais idade pra aprendê-la).

Bernard Herskovic disse...

Prezados,
Sério mesmo, ler os clássicos pode ser uma tarefa árdua (Smith, Marx, Veblen... cito esses autores, pois tenho mais familiaridade e me marcaram pela dificuldade).
Aditamento ao Lucas: quinto ponto, eu acho fundamental o fato de que estamos em um momento específico da história, do pensamento econômico, é fundamental compreender a evolução do pensamento econômico, o porquê de vários questionamentos que hoje não fazem sentido (aparentemente), pois é um processo sempre em transformação. A intuição da lógica de sua evolução é crucial para a formação de pensamentos, a gente aprende a questionar, a pensar. É muito parecido com: por que estudar história é indispensável?
Obs. (heheh)Outra maneira de encarar é os clássicos são iguais a músicas antigas, ou seja, já passaram por um filtro de críticas de várias gerações e continuam aí, devem ter alguma coisa de útil.

Guilherme Lichand disse...

economia é uma ciência social, e o fenômeno econômico é indissociável da História. Agora, se é fundamental para um economista estudar HPE, não tenho certeza. Conforme o Lucas mencionou, há intensa divisão do trabalho na profissão atualmente, e talvez isso acabe não sendo um pré-requisito para atuar como economista em diversas frentes. O que não quer dizer que não te torne um economista melhor em várias outras.

Tiago Caruso disse...

Respostas ao comentário do Lucas:


1)Topologia não tem um papel formativo, tem um papel instrumental. Não estudamos espaços métricos por cultura geral, mas por que assim aprendemos ferramentas úteis para inúmeras provas.

2)Vou me furtar de responder o seu argumentum ad hominem porque além de deselegante, ele é improcedente.

3)Não suponho que sempre há uma resolução positiva das controvérsias, suponho que ela existe em suma maioria das vezes. O que o Pérsio sugere é que a formação econômica é desequilibrada "pró-fronteira" no resto do mundo, com isso eu concordo, não devemos ignorar os clássicos. Entretanto, a formação econômica no Brasil é altamente desequilibrada "pró-clássicos", basta perceber que existem poucos centros de pós-graduação que fazem pesquisa de fronteira o resto que sabe xongas do que é publicado no mundo e estuda apenas os clássicos.

4)Nesse ponto eu concordo com o Krugman e com você, é possível que se encontre algumas idéias úteis nos clássicos, mas para incorporarmos a fronteira só depois de passarmos por topologia. Por isso acho que lê-los não é de primeira ordem no mestrado.

O foco da discussão mudou de "idiot savants" para bons economistas. Para ser um bom economista é preciso de uma base instrumental muito sólida. Algum conhecimento dos clássicos não atrapalha.

No entanto, continuo achando que para acabar com o complexo de "idiot savant" os "classicos" de economia são uma literatura pobre.

mattosbernardo disse...

Esse post eh parecido com o do Gaspari.

O avarento nao eh bom pra economia no geral. Se a pessoa gasta pouco, os preços caem mas o nivel de atividade tb, e por consequencia mais desempregados. Enqto uma pessoa que consuma muito vai pressiona os preços pra cima num primeiro momento, mas em seguida, se houver competiçao no mercado, mais pessoas irao produzir e ainda e o nivel de atividade e emprego alem da busca por inovaçoes vao crescer.

Como a negaçao da Lei de Say, a demanda eh q puxa o nivel do produto de um pais, a oferta por si so nao gera sua propria demanda

Apesar de ideologicamente ser contra o consumismo, mass como eh a economia e o mundo atualmente, ele (o consumismo) eh necesario

Tiago Caruso disse...

resposta ao Bernardo

A negação da Lei de Say é a oferta não cria sua própria demanda e não, demanda puxa o nivel do produto de um pais. O produto de um país, aliás como quase qualquer coisa em economia, é determinado pela interação de oferta e demanda. A demanda agregada determina o produto de curto prazo enquanto o produto potencial, o de longo.

Sua análise positiva do avarento está correta, o que está errado é a sua interpreção ideológica dos efeitos. Se ele é bom ou não depende do estagio da economia em relação ao seu produto potencial.

Eu também acho que os homens buscam algo maior que o consumo, que o engloba, a felicidade. Mas é melhor que o objeto de estudo dos economistas seja apenas o consumo. Deixemos que artistas, músicos e funcionários de cabaré cuidem da felicidade dos homens.

Anônimo disse...

TENHO QUE FAZER UM ARTIGO COM O TEMA POR QUE ESTUDAR A HISTORIA DO PENSAMENTO ECONOMICO, GOSTARIA DE UMA AJUDA DE VCS, POR FAVOR, MANDE COMENTARIOS...