segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Espectro Literário

Apesar do caos todo de hoje, meu post não vai ser sobre economia. Aproveitando minha posição no Espectro, vou dar uma de Diogo Mainardi hoje e espinafrar um dos ícones nacionais, o Machado de Assis.

Hoje é o aniversáiro de 100 anos deste escritor que é tido como um dos maiores da língua portuguesa. A disputa é muito mais acirrada em outras línguas e talvez nenhum dos escritores lusófonos entre no grupo dos maiores escritores, o que já serve de ressalva para as avaliações da qualidade e da relevância do Bruxo do Cosme Velho. Mas eu descobri recentemente um argumento ainda mais forte para os críticos.

E foi lendo justamente um dos fãs mais relevantes de Machado, Harold Bloom. Em um dos seus livros, chamado "Genius: A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds", Harold Bloom faz um apanhado de 100 dos seus escritores preferidos (duvido que a maioria das pessoas já tenha sequer lido 100 autores diferentes). Entre clássicos antigos como Cervantes, Shakespeare e Homero e gênios mais recentes como Joyce, Kafka e Faulkner, Bloom encontrou um espaço para Machado de Assis. E ainda arriscou dizer que Machado seria o maior escritor negro de todos os tempos.

Em algum momento do texto, Bloom reconhece que um autor inglês do século XVIII, chamado Laurence Sterne, exerceu forte influência sobre Machado. Especialmente o livro "The Life and Opninions of Tristram Shandy, Gentleman". Então, por curiosidade, resolvi ler o tal livro. É assustador.

Várias das características da prosa "machadiana" estão presentes. Talvez todas. Interlocução direta ao leitor (apesar de este recurso estar presente pelo menos desde Cervantes), referências constante aos clássicos, digressões longas... Pior ainda, o enredo do livro é muito semelhante ao de "Brás Cubas", que seria, disputando com "Dom Casmurro", o melhor livro de Machado.

Aí eu fiquei me perguntando, como que um cara que "se inspirou" tão profundamente em outro escritor pode ser considerado um gênio? Eu acho que, no máximo, ele pode ser considerado muito bom.

Agora, para não ficar um post totalmente negativo, na minha opnião tem um escritor brasileiro que entra fácil na lista dos melhores escritores da língua portuguesa e com grandes chances na dos grandes escritores, o Guimarães Rosa. E eu tenho até uma explicação para a relativa falta de projeção internacional dele. Alguns escritores perdem muito da sua força ao serem traduzidos. É o caso do James Joyce, por exemplo. E eu acho que é esse o caso do Guimarães Rosa também. Mas como todo mundo lê em inglês e ninguém lê em português, James Joyce é gênio e Guimarães Rosa é desconhecido.

17 comentários:

Tiago Caruso disse...

Rafael,

faço coro a sua aversão ao Bruxo, mesmo sem conhecer a obra de Laurence Sterne.

Agora, más traduções podem explicar a falta de projeção do Guimarães Rosa, mas não explicam o papel quase secundário dele na literatura brasileira.

Henrique disse...

"espinafrar", garoto?

Rafael Magri disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rafael Magri disse...

Fala dolabella...

espinafrar:
v. tr.,
Brasil,
gír.,
repreender ou criticar com dureza;
ridicularizar.

era essa a dúvida?

lucas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lucas disse...

quase parei de ler quando vc se inspirou no Diogo Mainardi.
Sou um dos caras que não leu mais de 100 autores (literários) na vida. Então nao tenho idéia como comparar Machado e Guimarães, que eu acho absurdamente bons, com lit. mundial de peso. Logo, autoridade por autoridade, fico com a do Bloom e regojizo meu orgulho nacionalista.
Agora, bom este ponto da tradução. Como traduzir "O famigerado"? Onde tem um fantasioso interior de Minas no resto do mundo? Seria West Virginia?

Ricardo Leal disse...

Eu já li pelo menos uma parte de Tristram Shandy (nao tive oportunidade de terminar) e mesmo com as semelhanças quanto à narraçao (e história, principalmente em Bras Cubas) e distorçao dos fatos por estes, ainda os vejo como relativamente diferentes.
Essa influencia de tristram shandy sobre machado já foi constatado desde que este ultimo é conhecido lá fora e, no entanto, nunca impediu que leitores e críticos estrangeiros apreciassem Machado de Assis como um escritor importante "in his own right".
Eu até entendo aqueles que não apreciem MAchado, mas chegar ao ponto de dizer que ele meramente copia os estilo de Sterne acho um pouco de exagero. Os dois são considerados os principais escritores deste gênero, entre outros.
Quanto a Guimarães Rosa, não gostei muito dele, me entendiou um pouco, mas vou dar outra chance algum dia. E a barreira da língua certamente é um fator para aqueles autores que fazem inovaçoes linguisticas, mas não vamos transformar o Guimarães Rosa no "nosso Kalecki". Ademais, outros autores conseguiram romper esta barreira como Garcia MArquez, entao só vejo o pouco reconhecimento de Guimaraes Rosa por dois motivos: ou ele realmente nao é importante ou a pouca relevancia da literatura brasileira no cenario mundial ainda nao chamou atençao para esta "pedra preciosa".

Ricardo Leal disse...

Ainda para aqueles interessados, existe um filme que é sobre uns atores tentando fazer uma montagem cinematografica de Tristram Shandy. Então, cenas do livro servem como pano de fundo e dá uma idéia de como é o livro para aqueles que nao tiverem tempo de ler o livro ou preguiça de terminá-lo (afinal estamos ainda no meio do mestrado).
O título em inglês é: "Tristram Shandy: A Cock and Bull Story", ou simplesmente "A Cock and Bull Story"

Ricardo Leal disse...

Para se ter uma idéia da dificuldade de traduçao, Grande Sertão: Veredas em ingles ficou The Devil to Pay in the Backlands. E pelo menos alguma lista o considerou um dos 100 maiores livros de todos os tempos, mesmo q tenha sido pelo Norwegian Book Club, hehe: http://www.guardian.co.uk/world/2002/may/08/books.booksnews

Henrique disse...

nada de dúvida conceitual. Apenas curiosidade acerca da inspiração.

Guilherme Lichand disse...

Rafael,

você afirma que o tecelão não tem o mérito da agulha e da linha. Eu e você conhecemos as técnicas e os elementos literários presentes nas obras de Machado, mas não creio que conseguiríamos reproduzi-las com sucesso de público (muito menos de crítica!).

A prosa de Machado foi capaz de impactar público e crítica mesmo sem contar com elementos aí ditos originais em Sterne. Outras vezes é a originalidade que é recompensada, ainda que pouquíssimo lida. Veja quantos realmente leram Macunaíma (tive o privilégio de ter uma professora que passou 2 meses de aulas praticamente traduzindo a maioria dos capítulos; a obra é praticamente ilegível). Em tempo, Guimarães Rosa é pouco lido mesmo no país porque não é uma leitura fácil, seus neologismos são muitas vezes obscuros, sutis, e muitos detalhes de seus textos são compreendidos por poucos.

Para concluir, sobre Machado, recomendo muito a leitura de "Economia em Machado de Assis: o olhar oblíquo do acionista", organizado por Gustavo Franco, uma seleção de crônicas publicadas nas principais colunas que o escritor manteve nos jornais à época... simplesmente geniais!

Rafael Magri disse...

Lichand,

Não acho que o machado não era bom, acho que ele não era original.

Ricardo,

Eu acho que o machado pode ser bom "in his own right", inclusive acho que dom casmurro entra aí. Mas em brás cubas, por mais que alguém tente argumentar comigo, não vou concordar.

Eu acho que o garcia marquez não foi um bom exemplo. Eu li em espanhol cem anos de solidão, e não achei que a forma fosse o mais importante ali.

No mais, concordo com as ressalvas que você fez...

Grande "Henrique"! Eu gosto da palavra...

Anônimo disse...

favor abster-se a comentários sobre economia.

eu...

Tiago Caruso disse...

Espinafrar: do verbo meter o espinafre.

Regência do verbo Abster: Abster-se DE fazer alguma coisa.

Abster-se significa deixar de fazer algo. Não significa ater-se.

Márcio Laurini disse...

Rafael

Essa relação é bem mais complicada aqui no Brasil; primeiro pelas inúmeras quebras e mudanças de regime em ações e taxas de juros. Além disso aqui os títulos do governo não eram livres de risco, o que complica um pouco mais.
E também as evidências de equity premium puzzle sempre foram fracas aqui.
Mas é um tema interessante.

Gabriel Paiva disse...

Acho que nunca vi post mais pretensioso. Vc diz que Machado plagiou Sterne, mas vc plagia MAINARDI.

Eu me incluo no "seleto" grupo que já leu "mais de 100 autores". Até Joyce já li - Ulysses e Finnegan's Wake. Originais. Vc já? Duvido.

Machado de Assis é o MAIOR escritor de língua portuguesa e um dos melhores do mundo. Como comparar a leviandade de Tristram Shandy com a profunda filosofia humorística de Brás Cubas? Ai ai, é cada uma que a gente lê por aí...

Rafael Magri disse...

E eu fiquei sabendo que você tá inclusive preparando uma tradução nova do finnegans pra português, né? Disseram que você não concordou com algumas passagens da tradução do Schuller.