segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Sobre um restaurante

Imagine um restaurante em que não houvesse preços, e os clientes tivessem que oferecer o quanto achavam justo pelo prato que comeram. O que um economista diria sobre isso? A minha reação ao tomar contato com esse problema foi a seguinte: "O restaurante não sobreviverá nem um segundo. Ninguém pagará pelo prato e o restaurante não terá receita. Além do mais, se algum cliente achar o restaurante muito bom, e querer que ele continue funcionando, poderia pagar algo positivo, mas ao ver que se somente ele tomasse essa decisão o restaurante quebraria, não pagaria. E se, por outro lado, todo mundo quisesse que o restaurante existisse e pagassem pela refeição, sempre haveria o beneficio de não pagar, e todo mundo não pagaria".

Pois bem, esse restaurante existe, e aparentemente dá dinheiro. Como eu poderia racionalizar isso? A resposta imediata é: Basta colocar alguma coisa que faltava na função utilidade dos clientes e o problema está resolvido. Neste caso, se argumentaria que a clientela deve levar em conta valores como justiça, ou até conceitos como "faça aquilo que você gostaria que fizessem com você". Mas acredito que se proceder assim, a microeconomia é capaz de explicar tudo, e assim sendo não pode provar nada. Como então contornar esse problema? Eu ainda não tenho uma resposta para isso. Infelizmente, no mundo da micro feijão-com-arroz, o restaurante já teria quebrado a muito tempo.

(Se bem que, se lerem a reportagem, é bem capaz que esse restaurante se sustente do curso que ministram para gringos... mas é mais legal pensar que não.)

15 comentários:

Guilherme Lichand disse...

vou me arriscar (ignorando a possibilidade de receitas não derivadas do core businness do restaurante)!

Em primeiro lugar, argumento que o indivíduo valoriza a continuidade da existência do restaurante, não em função de algum juízo valorativo ou consideração externa ao seu cálculo racional sobre alimentação, mas por ser um cliente e, pois, já ter revelado o restaurante preferido aos demais para dado estado da natureza. Se esse estado da natureza tem probabilidade positiva de ocorrer novamente, o indivíduo valoriza que esta opção esteja disponível, porque corresponde àquela que lhe confere maior utilidade.

Dito isto, é fácil construir um equilíbrio de Nash com informação completa em que o restaurante tem receita suficiente apenas para cobrir seus custos. Para fins de simplificação, suponha que cada cliente gera uma receita R, e que os custos totais do restaurante correspondam a N* x R, em que, pois, N* é o número de clientes pagantes para que o restaurante tenha lucro zero. Então, há múltiplos equilíbrios de Nash em que N* clientes pagam e T - N* clientes não pagam, sendo T o número total de clientes. Se N*-1 clientes são pagantes, a melhor resposta para um cliente isolado é pagar também, para que o restaurante esteja disponível na próxima contingência em que é a melhor opção às demais alternativas. Cada cliente, nessa condição, se depara com N*-1 pagantes, e o perfil constitui equilíbrio de Nash

Tiago Caruso disse...

ótimo post Mexicano,

vamos presumir que o restaurante realmente se sustente pelos valores pagos pelas comidas, não pelos cursos e que o Lichand não esteja certo.

Isso não estaria de acordo com a teoria econômica. Para contemplar esses fatos teríamos que colocar algum tipo de preferências por justiça ou simpatia na função utilidade. Poderíamos até argumentar que as pessoas não são racionais (não que racionalidade implique egoísmo) e tentar incorporar isso nos modelos econômicos. Ai vão algumas razões para NÂO fazê-lo:

1)Como nosso professor Carrasco comentou, esses são casos raros. Na maioria dos casos a teoria tradicional com preços se aplica bem.

2)A teoria clássica diria que indivíduos não são todos racionais, mas haveria desvios para ambos os lados de forma que na média eles são. O fato do restaurante ter impedido mesas com mais de 4 pessoas corrobora isso.

3)Outro argumento clássico é que as pessoas podem desviar do que seria o comportamento racional, mas quando o montante envolvido é alto, elas voltam para o comportamento previsto. Com comida é possível permitir que pessoas escolham quanto vão pagar, queria ver uma corretora de imóveis fazer isso.

4)No limite, economistas querem ser propositores de políticas públicas. Se você chegar a uma conclusão que depende da ausência de racionalidade, que política pública você proporá? Que as pessoas sejam racionais?

5)Um argumento do Varian: tudo bem, pessoas não entendem claramente as regras de funcionamento da economia. Mas elas também não entendem bem as regras da física. Pergunte a elas: "Qual bola cairá mais rápido de um prédio a de boliche ou a de tenis". Muitas errarão a resposta. Não quer dizer que Galileu estivesse errado ou que elas tenham dificuldade em sobreviver no mundo físico. A economia pode funcionar segundo normas que as pessoas podem não entender,mas corroboraram de forma inconsciente.

Anônimo disse...

Caros economistas, o que me intriga não é o fato das pessoas pagarem por um prato que é de graça.. não não ... Eu quero um equilíbrio de Nash em que os mendigos das redondezas não estão enchendo a pança nessa bocada!

M. Yoda

Victor disse...

Guilherme:
Você tem razão:
Os que não pagaram, não tem incentivos para pagar, já que dado que N* já o fizeram, o restaurante existirá.
Os que pagaram, não querem desviar, já que se o fizerem, comprometerão a existência do restaurante.

Mas ainda está em aberto qual o "bid" desses que decidiram pagar.

Se pensarmos em um segundo estágio em que os que decidiram pagar vão até o caixa e pagam simultaneamente, é Nash pagar o R, já que dado que os demais o farão, não há o incentivo para se desviar e comprometer o restaurante.

E se os pagantes formam uma fila no caixa? Se supormos que os que querem pagar não estão tão dispostos assim a manter o restaurante existindo, i.e., não assumirão a dívida dos outros, ainda é Nash pagar R. Em todos os nós é sempre melhor pagar a não pagar.

Tiago,
Muito obrigado, você tem bons pontos sobre a tentativa de racionalizar certos comportamentos.
Mas sempre é um bom exercício pensar nessas situações.

M.Yoda:
Eu é que me pergunto como é que eles não estão! Esse restaurante não deve anunciar sua política de cobrança,e só quem entra, come e tenta pagar é que descobre esse aspecto do restaurante.
Mas sempre tem o marketing viral,e por tanto só em um primeiro instante as pessoas não saberia da existência do restaurante...
Não tenho uma boa resposta por enquanto.

Guilherme Lichand disse...

mas eu construi meu racioncínio numa premissa totalmente questionável: informação completa!

Tenho um feeling que existe um equilíbrio bayesiano em que o restaurante tem lucros positivos! Fica o desafio por enquanto...

lucas disse...

Ainda que aprecie a engenhosidade do Guilherme ao achar um Equilíbrio de Nash (EN) q justifique a situação, é uma explicação completamente estapafúrdia. Além do que tem o problema (mas que aí é comum a todos E.N.) da previsão perfeita.
Do argumento do Myerson - reproduzido pelo Caruso, de que é necessário racionalidade para poder identificar as melhorias proporcionadas por melhoras de política (pública) - eu discordo. Do que adianta desenhar políticas públicas para agentes racionais se as pessoas de verdade nao se comportarem desta maneira? Melhor seria desenhar instituições dado o comportamento das pessoas, já que como o Caruso afirma este é difícil de mudar.

Galego disse...

Alguns experimentos mostram que o homem tende a mostrar um senso de justiça quando está em grupo, ou quando outros agentes sabem de sua decisão.
Nesse caso, as pessoas que freqüentm o restaurante e pagam um preço "justo" querem sinalizar que são pessoas com senso de justiça.
Eu proporia que, durante um dia, o restaurante colocasse uma regra onde as pessoas iriam para uma cabine indevassável, colocariam o dinheiro num envepole e depositaria este numa urna. E depois comparasse o dinheiro arrecadado com o pagamento em espécie que o restaurante geralmente recebe. Eu duvido que ele não caísse significativamente.

E, de resto, o Tiago já escreveu muito bem sobre o assunto.

Bernard Herskovic disse...

Creio que a maioria das pessoas comuns (consumidores) não seja racional (preferências completas e transitivas) para todas as situações, mas que seja possível, na maioria dos casos, criar um agente hipotético que tomaria as mesma ações “não-racionais” desses consumidores, porque as pessoas num dado instante do tempo têm motivos para fazer o quê fazem mesmo que entre em contradição com suas preferências no mesmo momento (indicando a não racionalidade). O restaurante é um caso no qual devemos nos perguntar o quê as pessoas estão otimizando, quem sabe os consumidores atuais poderiam perder alguns “úteis” ao não pagar... Mas, podemos estar nos deparando com um equilíbrio de Nash curioso.

Mesmo que a não-racionalidade esteja presente na maioria das pessoas comuns, a medida que a verba aumenta há mais racionalidade. Grandes empresas podem ser consideradas racionais que otimizam lucros para se fazer políticas públicas, caso sejam voltadas aos “grandes agentes”. No caso, chamá-los de racionais talvez não seja muito errado, pois o comportamento observado é como se fossem.

Tiago Caruso disse...

Lichand,
achei uma forma de testar o seu modelo. Se as pessoas contribuem para poder voltar lá depois seria normal que os turistas não dessem nada ou pelo menos pagassem menos que os porteños. Manda um e-mail para o Pampa Picante e pergunta se isso é verdade.

Tiago Caruso disse...

Lucas: "Do que adianta desenhar políticas públicas para agentes racionais se as pessoas de verdade nao se comportarem desta maneira?"

O problema de levar em consideração a falta de racionalidade das pessoas ao propor políticas públicas é a falta de super-exogeneidade.

Na linha da crítica de Lucas, ao propor uma política pública o administrador deve levar em consideração que as pessoas reagem a elas. Se os resultados na elaboração da proposta dependerem da irracionalidade das pessoas, elas podem muito bem aprender com a nova política e passar a agir racionalmente em relação a ela. Assim sua política se torna inócua.

Lucas: "Melhor seria desenhar instituições dado o comportamento das pessoas, já que como o Caruso afirma este é difícil de mudar.".

Não foi isso que eu disse. Acho que as pessoas mudam, só não é o papel de um economista ou formulador de políticas públicas querer fazer isso.

Michel disse...

Lichand: concordo com o teu modelo em geral, apesar de ele apresentar múltiplos equilíbrios também sem pagamento. Com info. assimétrica, acho bem provável que o restaurante desse lucros positivos. Como referência, citaria modelos parecidos de participação em eleições (a pergunta é: porque que tanta gente vai votar, ao invés de só ir votar o mediano?). Com info. assimétrica, se explica mta coisa de participação excessiva, mas sempre há mais participação eleitoral na realidade do que nas simulações dos modelos de info. assimétrica.

Caruso: Concordo com o teu ponto (1). Não concordo com o (2) porque o ponto das teorias comportamentais é que em média as pessoas não se comportam racionalmente (e é +- isso que os experimentos mostram). Não concordo com (3) porque quando as teorias comportamentais são testadas com vendas de imóveis (para prospect theory), valores equivalentes a 1-2 meses de salário (justiça), e investimentos em mercado financeiro (auto-confiança/dissonância cognitiva) as suas predições ainda são observadas. Ou seja, ter valores altos em jogo não incentiva racionalidade. Essas teorias ainda podem ter seus efeitos exacerbados (principalmente as de finanças) em caso de mercados de crédito imperfeito.

Apesar disso, eis alguns motivos que acho válidos a serem questionados em teorias comportamentais:

(a) Em geral, elas são pouco capazes de falar sobre bem estar social (em particular, as de preferências por justiça; o "prospect theory", do kahneman e tversky; e a de "dissonância cognitiva" do akerlof). Sendo assim, são pouco capazes de propor políticas públicas (ou seja, concordo com o teu ponto (4), mas não pelos mesmos motivos, porque não acho que se tomaria essas teorias como base pra propor que as pessoas mudassem de preferências, mas sim, como reações mais plausíveis, como colocou o lucas).

(b) Em particular, as teorias de justiça são muito pouco robustas a testes. Por exemplo, nos papers do Rabin sobre justiça, alguns dos testes que ele desenhou não deram certo. Ainda mais, quando você bota um terceiro jogador nos experimentos (normalmente, eles são feitos com jogos de dois jogadores), as conclusões se perdem. Também as teorias de formação irracional de crenças são muito pouco robustas aos testes (exs.: a teoria de formação de crenças imbutida no prospect theory; entre outras terrivelmente mais detalhadas). Também, as de equilíbrios comportamentais para jogos são incrivelmente voláteis e variam muito de jogo para jogo.

Blog do Adolfo disse...

Essa é uma excelente pergunta. Mas ela já foi feita com outro nome. Se vocês pesquisarem verão que os economistas tentam explicar o porque das pessoas darem gorjeta.

Note que uma pessoa que nunca mais voltara no restaurante, que nao mora naquela cidade, nao tem estimulo algum para pagar gorjeta. Mas mesmo assim todos pagam.

Grande abraco,
Adolfo

Anônimo disse...

Caro Victor,

Aí vai uma sugestão como leitora leiga, não economista. Entendo que o objetivo deste blog é realizar um debate entre economistas, mas vocês poderiam escrever em uma linguagem que não só os economistas mas as "pessoas comuns", "civis", "não economistas" pudessem compreender?

Isso porque alguns termos são técnicos demais para quem não respira economia (Equilíbrio de Nash, argumento de Varian...)o que acaba por excluir os pobres mortais (como eu) do debate. Acredito que muitos gostariam de agregar e não possuem conhecimento o bastante para entrar na discussão e se arriscar.

Grata.

Tiago Caruso disse...

Prezada anônima:

Você está coberta de razão. Nós economistas deveríamos fazer um esforço para nos expressarmos melhor. Eu faço, mas muitas vezes fico aquém do desejado.

Equilíbrio de Nash é uma situação onde ninguém tem interesse em mudar de atitude sózinho.

Varian é só o nome do Autor. Fui eu quem fiz a referência para dar um pouco de autoridade ao argumento. Se você ler de novo, verá que tento explicá-lo logo em seguida.

Victor disse...

Cara anônima,

Buscarei conversar com os demais participantes desse blog, e tentarei expressar meus pontos de forma mais inteligível para todos, sejam economistas, ou não.

Obrigado pelo conselho, e apareça mais vezes por aqui!